domingo, 30 de setembro de 2007

Sic k

Interromper uma entrevista e trocar um ex-primeiro ministro – por muito mau que tenha sido – por um treinador – por muito bom que seja – seria em qualquer país normal um escândalo.


Trata-se de uma hierarquia de valores. Uma aristocracia de funções. O que está em causa não são homens e as suas qualidades, mas os cargos que ocupam ou ocuparam. E a sua expressão utilitária para a sociedade. E a hierarquia da sic neste momento é agua cristalina. Os treinadores estão acima de ex-primeiros ministros.

sábado, 29 de setembro de 2007

Guia-nos Boaventura

Nuno Castro aborreceu-se com Rui Tavares. O motivo da zanga? Rui Tavares “termina um dos mais recentes [artigos] que versa sobre a imigração com um sinistro “sentir-se português”.” Compreendo o incómodo de Nuno Castro, entendo o desconforto de Rui Tavares. Temos de recuar dois séculos e conhecer a voz de quem segue ao leme do nacionalismo alemão. Abram alas a Fichte. O mestre, o profeta, o filosofo da escola romântica, e é com a elegância dos mestres, a eloquência dos profetas, a paciência dos filósofos, que celebra a sociedade, o grupo, o colectivo, a raça, a nação nos quais o individuo decompõem-se e pelos quais marcham. O individuo é o jarro que o colectivo preenche. O que é o homem senão o barro que a marcha da moral molda. O papel do individuo é prestar homenagem à sociedade da qual emana. Fichte não morreu em 1945 com a queda do nazismo. Fichte está entre nós, idealista e entoando o hino laudatório à “nação”. O que é a nação senão a cultura, a tradição, a memória. Avisa quem quer ouvir, a submissão, o sacrifício, a obediência ao super-eu, ao cosmos que pariu o nosso corpo, ao banco cultural credor da nossa alma, não é privilégio, é dever. Vivemos dias marcados por um novo nacionalismo. Um nacionalismo que aparece entre as bandeiras ao progresso. O multiculturalismo. O multiculturalista, herdeiro dos movimentos socialistas, já não habita a casa do socialismo economicista, vive sob o tecto do reaccionarismo cultural. O multiculturalista vê no imigrante, não um novo cidadão igual aos demais cidadãos, mas o refugiado. Não um individuo do qual lhe pedimos deveres e a qual lhe prestamos direitos. Não um novo membro da comunidade. Não o cidadão obediente à constituição. Mas uma nova comunidade. Um novo substrato moral. Uma nova civilização. Um novo corpo de leis. A mão orgulhosa de Fichte a partir da tumba acarinha o filho do seu ventre. Tal como os românticos de outrora, os multiculturalistas clamam pela defesa das culturas naturais perante a marcha abjecta da civilização mecânica. A civilização que destrói a pureza, que amassa o genuíno, que viola os castos. Não é o imigrante o átomo insignificante da comunidade a que pertence? É só uma peça do relógio comunitário. E o que é a razão que ecoa no ambiente institucional senão a voz da civilização liberal? Nesta caminhada a bandeira já não é o operário ocidental, é a manifestação cultural que brota da comunidade imigrante. Esperemos então que Boaventura de Sousa Santos nos guie pelas trevas do iluminismo até à terra prometida.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Nuno Castro

No campo da teoria politica a liberdade absoluta não existe e nenhuma utopia a busca. O que existe são vários graus de liberdade incomensuráveis que não cabem numa mesma escala de grandeza. Vivemos sob ferros desde que nascemos até ao leito da morte. A família, a religião, a tribo, todas elas porfiam na execução impiedosa das nossas liberdades. Viver em sociedade implica a perda lamentável de liberdade. É uma pena. Quanto a isso não há nada que possamos fazer. Isaiah sabia-o

O que aqui interessa é o poder que deve ser concedido ao estado. O problema central da teoria do estado é o problema da moderação do poder politico – da arbitrariedade e do abuso de poder, da liberdade que concedemos ao estado e a que subtraímos ao individuo – jamais ignorando que toda a politica consiste na escolha do mal menor. O paraíso não existe e quem o procura arrisca-se a encontrar o inferno. Liberdade não é equidade, justiça, ou felicidade. Mas, citando Berlin, “restringir a liberdade não é fornece-la, e a coacção, não importa quão bem justificada seja, é compulsão e não liberdade”. O liberalismo moderno tem inúmeras faces e todas elas buscam uma ordem fundada na liberdade individual e na alternância de propostas concorrentes no exercício do poder apenas limitado pelo império da lei. A teoria liberal do governo representativo aponta-o como um dos instrumentos para limitar o poder, e não como fonte de um poder absoluto. O liberalismo está aberto à mudança pois não é a verdade revelada. Esta pede liberdade crítica para a gradual alteração de leis e costumes, uma fiscalização que visa a correcção e reformulação de politicas públicas. É esta possibilidade de reforma gradual que a democracia liberal assegura. Um regime pragmático cuja ordem emana mais das rotinas da praça e da rua do que do quotidiano dos corredores e salas em que os burocratas habitam.

O totalitarismo em oposição vive num labirinto de dogmas, tabus, certezas. Um mundo imutável, pré-estabelecido, historicista que não resiste aos ventos da história. O cosmos totalitario não está preparado para a mudança e quando a enfrenta o castelo ideologico vem abaixo

No que respeita ao mercado, seguindo o pensamento de Popper, o que se contesta no modelo socialista nem sequer é a sua anti-economia, é a sua negação da liberdade e a sua desumanidade. Citando Popper “não estamos dispostos a trocar a nossa liberdade por um prato de lentilhas.” Acreditamos na liberdade pois acreditamos nos nossos semelhantes, e o objectivo de uma sociedade deve ser o de facultar a realização do maior numero de planos de vida individuais. A liberdade deve ser o chão do jogo económico. Pois só a liberdade do e no mercado permite a cada um buscar os seus próprios fins. De qualquer modo, factos são factos, o mercado não é apenas o mais adequado à ordem social como resulta razoavelmente bem. O mercado numa visão puramente marxista não é socialmente justo – nem isso procura – mas justiça social num estado de liberdade não é possível. E num estado totalitário como todos vimos a “justiça” só existe se considerarmos a miséria massificada justa. O mercado não é idílico, utópico ou ideológico, organiza-se espontaneamente em virtude da auto-organização dos seus elementos, não obedece a dogmas pois estes pedem a acção do homem e não a sua indolência.

O estado liberal moderno não se orienta pela visão messiânica de um mundo utópico, não procura visões idílicas nem o delírio perfeccionista, procura regular e administrar o jogo social. A transformação das regras sob a custódia do governo deve apenas reflectir a marcha da história. A religião pode ser um dos grilhões da vida humana mas responde às perplexidades da humanidade. A cristandade é mais do que as superstições de um grupo de nómadas. Escreveu a História – a nossa História – trouxe o elogio do perdão de Cristo ou o amor ante o próximo e carregou ao longo dos séculos até aos nossos dias o legado romano. Faz parte da herança cultural do ocidente.

A bíblia é a palavra de deus, a verdade revelada. Por isso imutável. Fé em deus, pelo menos o deus da cristandade, pede fé no criacionismo, no dilúvio e varias imprecisões científicas. Acredito numa ordem espontânea, acredito na atmosfera primitiva, acredito no caldo primordial, se esta não exclui o deus moral que pune os fornicadores, os homossexuais, os amantes de si mesmo - o deus cristão - exclui o deus ordenador do universo. E se deus não é o ordenador do universo, deus é uma falácia.

Há quem acredite no deus cristão, nada a opor, tenho entre a família mais próxima quem acredite, e não consigo defender uma ordem em que os impeça o exercício legítimo da fé. Negar o direito de cada um exercer fé no que quiser, de fazer o que bem entender, viver como desejar, não é apenas iliberal, é revolucionário e um passo a caminho da tirania.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Fernanda Cancio

Fernanda Cancio, não preciso de fotos ou jantaradas para ver que alguma esquerda e terroristas procuram o mesmo fim: Lembro-lhe que a 12 de setembro de 2001 raros nao foram os recalcitrantes aos 3 minutos de silencio em homenagem à memoria dos milhares de vitimas. Entre eles estavam os militantes da cgt francesa. E raros nao foram os que aclamaram divina surpresa ante esta nova cruzada contra a america.

De si não espero o mesmo, é demasiado pura e dona de bom coração. Acho, acho eu, que quando nao escreve, toca harpa e entoa melodias em honra das barrigas de fome em africa e dos pedintes de calcuta.

Cancio, amiga da humanidade, esposa da virtude, concubina de deus, peço perdão, pois pequei. Andei, por descuido, nas masmorras infernais da internet, li, por descuido, as heresias que ali se escrevem. Testemunhei, por descuido, que eram de mario machado.

Deixemos, pois, falar a vil criatura, o monstro horrendo que ofende a humanidade e toda a decencia, que respira só para roubar o ar dos bons, que abre a boca apenas para insultar os puros. Oh natureza, de todas as criaturas que pariste esta é a mais vil e hedionda. Marx, Saint-Simon, Gramsci, que o façam pagar na morte o que não vier a pagar em vida. Que o façam suplicar por uma colectanea de snoop dog e uma divisao com cinco imigrantes do senegal e dois do burkina faso. Que o ponham de joelhos diante de lenine e que o cozam nos dominios de frantz fanon. Criaturas de boa moral, gente da paz, homens de decencia não o leiam sob pena de arderem nos fogos do inferno:

"É que segundo a nova lei que entrou em vigor dia 15, hoje, eu passei a estar preso ilegalmente, pois o tempo máximo de prisão preventiva é de 4 meses, tendo eu cerca de 5 neste momento, pois fui detido em 18 de Abril de 2007. O tribunal tinha por isso de me libertar, tal como fez com cerca de vinte presos neste estabelecimento, em situações similares.Então, ardilosamente, tinha a acusação para assinar no dia 15, mas dizendo que ela ficou pronta no dia 14 pelas 23.00 horas."

"Falei com guardas, que o são há mais de vinte anos e nem eles viram algo assim nas suas vidas, virem enganar um recluso para manterem a prisão preventiva a todo o custo!"

"Contra nós tudo vale: inventam-se processos, forjam-se provas e agora até se ultrapassam os prazos legais, e pior ainda, tentam enganar um recluso levando-o a assinar no dia 15 uma acusação que obviamente não foi concluída no dia 14, e logo às 23.00 horas"

domingo, 23 de setembro de 2007

Isaiah Berlin

Isaiah Berlin escreveu sobre as ruínas que Heine conseguiu pressentir. Um mundo cercado por terror por todos os lados. Isaiah Berlin procurou compreender os alicerces filosóficos que o sustinham. As grandes batalhas travadas no campo e no domínio da politica têm correspondência directa em outras tantas batalhas travadas no universo das ideias. Isaiah Berlin desenvolveu duas concepções de liberdade que, embora nem sempre marchem em direcções opostas, não são necessariamente equivalentes.

A liberdade negativa, a liberdade em que cada um possa arruinar-se da forma que escolher, fazer o que desejar, viver como quiser. A liberdade negativa corresponde à tradição do liberalismo clássico inglês no qual teve em Popper um bom teórico. Assim para a liberdade negativa o problema fundamental do estado é o problema da moderação do poder politico – da arbitrariedade e da extensão do poder pois qualquer lei é uma infracção à liberdade. Tal como Hobbes a definiu “as liberdades dos subditos dependem do silencio da lei”. Os liberais modernos honram essa tradição.

Liberdade positiva. Aqui a questão é a de quem tem legitimidade para controlar ou interferir sobre a esfera de liberdade do sujeito. O que é liberdade? Rousseau respondeu: liberdade é obediência, mas obediência à lei em que nós acreditamos. A perversão entra quando o estado que no fundo só busca o nosso bem comum pede a nossa submissão, as nossas liberdades mesquinhas, o nosso individualismo para conduzir-nos a uma liberdade mais profunda, mais natural mais racional que apenas o tirano, o estado, o colectivo compreende. O principio obriga e legitima aquele que foi libertado pela razão a conduzir à luz, nem seja pela força, os que permanecem na escuridão. O âmago da liberdade positiva foi o manto de desculpas que cobriu jacobinos, Comunistas e fascistas.

sábado, 22 de setembro de 2007

Antonio Figueira

O AF assume o que distingue homens é tão só as instituições que representam e o nome que carregam. Escuso de desmontar a natureza elitista do pensamento. Julgar homens pela importância dos cargos que desempenham ou dos partidos que orientam é perfeitamente arbitrário e naturalmente absurdo. Aqui não está em causa a natureza unidimensional do ku-klux-klan. Para AF um grupo infame como o pnr jamais pode ser comparado a um partido de bom-nome como o BE. Um partido de gente nobre e civilizada embora os campos já não sejam os da dialéctica de Hegel mas os de milho transgénico. O que está por detrás de semelhante pensamento, mais do que uma expressão de elitismo, é a velha hierarquia que o socialismo criou. No topo, o socialismo que vinha restabelecer o reino dos céus, no meio os partidos social-democratas, num degrau abaixo conservadores e liberais, e no fundo, a sarjeta imunda da politica, os partidos fascistas. AF traz algo de novo: o partido fascista não é só uma vastidão de trevas, é uma casca de ovo vazia que jamais conheceu gema ideológica, uma claque de futebol, portanto. O que o leva a ignorar os filósofos que criaram o sumo ideológico a que os fascistas do passado e de hoje foram beber? desconheço, mas estes não vão desaparecer e estão ai à disposição de todos. É só abrir um livro que faça luz sobre o século XVIII e XIX.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Esquerda anti-liberal

A Fernanda Cancio, e o Daniel oliveira encaixam mal as teorias liberais e o liberalismo de Pacheco Pereira espumando de raiva ou adoptando a sátira quando este acena com a trama autoritária que eles próprios tecem. Ou seja, liberdade para os amigos, ferros para os inimigos. Daniel Oliveira e Fernanda Câncio pertencem à tradição seca, rígida, luminosa, obstinada do pensamento francês. O JPP no seu artigo involuntariamente se refere a um país fictício que se rege pela “utopia” liberal, na esteira dos liberais clássicos, uma utopia livre de todas as formas de coacção arbitrária de um regime ainda mais arbitrário. O crime de ódio racial, ou o crime de se ser nacionalista, fascista ou reaccionário são claros anátemas a uma sociedade genuinamente liberal. Símbolos de um pensamento que acredita piamente na liberdade embora a neguem cinicamente aos seus adversários. Uma escola que muita vezes passa dos seus líricos cânticos à liberdade para teimar na prática jacobina de usar a guilhotina como instrumento politico. Numa utopia kantiana, que faz da liberdade o substrato da moralidade e que proclama o homem como fim em si mesmo, os “crimes” de ódio racial são clamores de uma autoridade que já instrumentalizou a liberdade. Em democracia há Mários Machados, mas também há Jerónimos de Sousa. Embora possamos discordar de tais indivíduos, temos de lembrar-nos de que a liberdade precisa tanto dos seus críticos como dos seus defensores. A discussão ampla constitui a base do livre pensamento do indivíduo. Uma total liberdade de pensamento não é possível se não houver liberdade politica. E a liberdade politica é uma condição prévia para o pleno e livre uso da razão de todo o indivíduo.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Nós e os Outros

Hobbes descreveu a humanidade num estado de guerra inicial de todos contra todos. Acreditava numa humanidade guiada pelos piores instintivos e piores propósitos. Concordo em parte mas não prescrevo a solução autoritária de Hobbes e recaio mais para a visão liberal de Locke. Estou ao lado de uma ordem em que cada um possa arruinar-se da forma que escolher, fazer o que desejar, viver como quiser. Uma ordem liberal debaixo de um governo de cariz conservador como Oakeshott o pintou. Um governo que não se orienta pela utopia de um mundo melhor, não procura o delirio perfeccionista e que a sua vereda é o controlo jurídico dos assuntos mundanos. É esta a ordem em casa. O mundo exterior e a sua arquitectura politica ou prepolitica não nos diz respeito, só quando este nos bate à porta. Os nossos interesses devem ser salvaguardados e defendidos. A arábia saudita tem petróleo, nós precisamos, então procuramos um acordo que vá ao encontro do interesse de ambos os países. Geralmente um conservador não gosta que lhes amassem o centro da capital com aviões comerciais. Se acontecer os autores e quem os protege devem ser punidos. Um conservador é igualmente alguém que não ignora as circunstâncias. As circunstâncias moldam o conservador. A turbulência da umma islâmica ameaça nosso estilo de vida, ameaça a nossa paz, ameaça a cidadela civilizacional? Então medidas terão de ser tomadas. Países serão invadidos. Presidentes depostos. Comunidades de fé disciplinadas. Fora de casa a lei é escrita pela diplomacia dos canhões. Não porque queremos, mas porque nos impoem. A historia quando se mexe não pede licença

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Maddie

Uma nação vive em perpétuo reboliço, a exibição das suas praças e ruas, a ostentação dos hábitos e costumes da turba, a exposição das normas e preceitos nacionais, a apresentação da miséria e desgraças pátrias, recruta a estranja para momentos de reflexão e a exíguas avaliações. Somos infelizmente um país lamentavelmente mal frequentado e pior administrado. Este país alimentou lá fora e arrecadou cá dentro a sombria fotografia durante décadas de um país imaculadamente atrasado e irremediavelmente amassado por séculos de franco isolamento e desapego pela História.

De pouco tem valido o convívio com as nações civilizadas. Assim que Maddie McCann desapareceu misteriosamente para o mundo, Portugal reapareceu escandalosamente nas primeiras páginas do mundo. E o reaparecimento sazonal da espelunca é sempre um escândalo e um amargo de boca para os nativos. De nada vale argumentar com Vasco da Gama ou Fernão Magalhães, ou discutir a poesia de Fernando Pessoa ou a prosa de Eça de Queiroz ou aludir a mordacidade de Saramago e o progressismo de Mário Soares. O cosmos germânico pede mais: Organização, eficiência, profissionalismo. Desafortunadamente a rude nação desdenha com fervor as três qualidades e faz da incúria o corpo do nosso ambiente institucional. Este caso só veio reforçar o estigma. Legitimar o insulto. Reanimar a anedota. Para o caso vencer a habitual lentidão tivemos de recorrer a cães e laboratórios britânicos. E não tivemos de importar detectives e know-how? Muitos acabaram a questionar a validade da figura “arguido” e mais se perguntaram porque um anátema flagrante à sociedade democrática como o segredo de justiça permanece mudamente enquadrado no sistema jurídico português. Se o país é imbecil mais é a justiça. Ficamos cada vez mais convencidos que ténue é a fronteira entre vítima e arguido. Que um dia com o pesar do universo somos vitima e no dia seguinte com o asco do cosmos somos arguido. Tão rapidamente se excita a antipatia como se incendeia a amizade da plebe. A tragédia lembra-nos – e a imprensa britânica fez questão de não esquecermos – o caso de Leonor Cipriano em que o empirismo e a ciência não estão entre fronteiras, e que os métodos que buscam os factos passam a imagem de uma “justiça” forjada no calor da inquisição. Como negar que a sentença que sai dos tribunais ainda não escapa a uma lógica fundada na auto-incriminação via confissão que usualmente termina com os confessados não numa cela da prisão mas no conforto do hospital. Como negar que a decisão dos tribunais não está em continuidade com a praça pública e que a primeira se converte invariavelmente num ruidoso eco da última. As dúvidas são legítimas e deviam de comparecer entre a buliçosa retórica de quem procura emendar o sistema.

Recuar séculos e imaginar mapas cor de rosa não serve de modo algum o interesse nacional. O julgamento não tem como origem a imprensa britânica. É a civilização que nos julga. E o erro não deve ser motivo de vaidade e de lúgubres polémicas sobre tablóides e insanáveis suspeitas sobre o nosso velho aliado. Soluções? Fugir do mundo? Amargurar estoicamente em silêncio? Fingir que não é nada connosco? Não. Devemos estudar a lição, beber o caldo cultural dos vencedores e rejeitar a dos vencidos e disciplinar a nação – sem barulho, e o orgulho pátrio não é para aqui chamado – caso contrario casos como de Maddie vão se inexoravelmente repetir e continuaremos periodicamente a ser alvo de infame chacota. Pelo o que somos e pelo o que não conseguirmos ser: europeus. E nesse caso o orgulho pátrio já é para aqui chamado. Infelizmente.

domingo, 16 de setembro de 2007

Iraque

A guerra do Iraque não pode ser desligada do 11 de Setembro. Sem 11 de Setembro a guerra do Iraque nunca teria acontecido. A opção de invasão foi controversa, e, má ou boa, revolucionária. Que numa visão utilitarista, Helvetius não nos ouça, entende-se. A moral não é para aqui chamada quando somos a criatura que vê o passado, o presente e o futuro. Os norte-americanos não são essa criatura e tal como em dresden, hiroshima e nagasaki, a opção foi acompanhada de todos os demónios que povoam a alma humana. Quem tomou a opção poderá estar a arder nos fogos do inferno mas garantiu um futuro sem o nazismo e um Japão integrado no cosmos ocidental, seja lá o que isso possa significar nos dias de hoje. O Iraque pode não ser num futuro próximo uma Alemanha, um Japão, uma Itália ou uma Coreia do Sul. Mas nada nos impedia em 2003 de assumir o contrário.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A figura em questão não tem um pingo de vergonha. Quanto a isso estamos conversados.

O jornal avante tem a mesma moralidade da venerável senhora, outrora prostituta e dona de um bordel, a respeito da conduta moral dos outros, ou seja, nenhuma.

A esquerda radical no século XX estendeu um manto de desculpas para um cosmos infernal de tiranias, censuras e campos de concentração. Justificou sem muito escândalo ou problemas de consciência um ror de massacres desde Angola ao Camboja, desde a união soviética a cuba, desde a Coreia do norte a Espanha. E em nenhum momento os comunas fizeram o necessário acto de contrição histórico. Enfim, paz às suas almas. Pois há muito que foram vendidas a bom preço

Mas vamos dissecar ponto por ponto o que ali é escrito:

Seis anos depois dos terríveis atentados que enlutaram o povo norte-americano e abalaram as expectativas de todos os povos do mundo num futuro de paz e solidariedade, o balanço dos resultados da política da Casa Branca pode ser expresso em duas palavras: destruição e morte.

Usando o mesmo argumento podíamos culpar os estados unidos pela destruição e morte durante a segunda guerra mundial. Os estados unidos entraram oficialmente na guerra mundial em 1939, findado 6 anos de envolvimento norte-americano a guerra não clamara a vida de 55 milhões de vidas?

não há manipulação que chegue para dourar a amarga pílula da realidade: o mundo está mais perigoso

Mas o conflito está em curso. Em plena batalha de Inglaterra, os ingleses também poderiam dizer que os mortos e os bombardeamentos aumentaram depois do começo da guerra. Críticos do calibre da articulista não teriam duvidas em concluir que se estava pior e que o mundo estava mais perigoso. Mas as conclusões, más ou boas, têm de ser reunidas no fim.

mais desequilibrado, mais injusto.

Não compreendo porque uma comuna não se encontra feliz. Os atentados de 11 de Setembro provocaram o descalabro do comércio mundial momentâneo. Como consequência provocaram a queda das exportações dos países pobres, o que levou à abolição de dezenas de milhão de postos de trabalho, ao agravamento da miséria e ao alastrar da fome. É um pequeno inconveniente do recuo da globalização a que os seus adversários não pareceram atribuir muita importância. É óbvio que após a reacção inicial aos atentados o planeta gozou uma melhora significativa. A europa ainda que mal não deixou de crescer, a asia desenvolvida e os estados unidos crescem como se 11 de setembro não tivesse acontecido. E o mundo subdesenvolvido, com a china e a india à cabeça crescem a taxas de 10% ao ano.

As desigualdades foram agravadas, as condições de trabalho e de vida de grande parte da população mundial estão a ser niveladas por baixo (de tal forma que se registam já retrocessos civilizacionais).

O espaço é de 6 anos e as conclusões do calibre que a articulista misteriosamente chega são dificilmente alcançáveis. Mas gostaria saber que retrocessos civilizacionais se registram. Será que já não se aplicam integrais e cálculo diferencial no campo da matemática? A locomoção passou a depender das bestas? Teve a articulista de ceder o lombo?

Os países e povos que ousam desafiar a ordem internacional imposta pelo imperialismo norte-americano estão sob ameaça.

Felizmente tiranos não falam em nome de países e de povos, geralmente subjugam-nos e recusam-lhe a voz.

revela que apenas 5% dos norte-americanos ainda acreditam que Bush irá ganhar a guerra.

A articulista está feliz, mas recusa a inteligência. A guerra pode eventualmente correr mal a bush, mas não é só bush a perdê-la. Todos nós estamos a perdê-la e todos nós estamos na fila de espera. Se peças como Afeganistão e Iraque caírem as explosões não serão em Bagdad mas onde nos custa mais. Em Londres, Madrid, Frankfurt, Lyon, Milão. Porque são alvos apetecíveis e mais expostos que o anatema de comunas e terroristas - a américa.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

O 11 de setembro

Os reformadores ocidentais do século XVIII e XIX buscaram a ordem justa. A ordem despida das regras arbitrarias de determinados indivíduos que se constituíam a si mesmos como autoridades perante a vasta maioria. Uma ordem cujo primado era proteger a liberdade do indivíduo da intrusão por parte de outros indivíduos. Era isso que significava para a maioria dos revoltosos franceses que ergueram bandeiras revolucionárias para libertarem o indivíduo e depois enviarem os seus exércitos através da Europa para libertarem outras nações. Porém, a defesa abstracta do indivíduo e da sua livre escolha, não termina na ordem justa. Só com liberdades económicas – o direito de todos participarem igualmente na sociedade do consumo – podem as pessoas tirar o máximo proveito das liberdades politicas e de pensamento. Só a liberdade económica gera a sociedades sedentária disponível a meditar-se a si própria e lançar-se na excursão politica universal. A melhor solução postula que o problema da pobreza é insolúvel sem a participação dos pobres e que há que despertar primeiro o desejo e a ambição de melhorar a sua situação para se conquistar a sua colaboração na administração plena do conteúdo público ou na ordem tecnológica. Um miserável sem instrução dá um mau gestor público e um pior cientista. Isto é uma construção meramente ocidental que, portanto, numa sociedade globalizada rivaliza com modos subtis de entender a ordem politica. Após o 11 de Setembro, ante a ameaça do terrorismo islâmico nas ruas de Madrid ou de Londres, a Historia abriu-se novamente, como sempre se abre às contingências do tempo. A marcha da história é implacável e na qual só os vencedores ocupam a dianteira. A nossa civilização não é perene e como Roma caiu também nós podemos ruir. E com ela os filósofos e os pensadores que ergueram a civilização. As obras que fomos lendo, vendo, vivendo para nosso prazer e consolação, serão apenas pó no baú do esquecimento, fantasmas sem memória com poucos para os recordar. As quedas são sempre traumáticas e violentas. Roma regrediu mil anos e recuou à idade do ferro. “Os exemplos são múltiplos. No século V era possível a um agricultor no norte de Itália guardar líquidos domésticos em ânforas do norte de africa de qualidade razoável e dormir em habitações sólidas com cobertura de telha. Isto acabaria por desaparecer nos séculos seguintes. Mas não só. A moeda acabaria por desaparecer como instrumento corrente, comercial, diário. Desapareciam também industrias inteiras, ligações comerciais necessárias para alimentar o império.” A segurança declinou e a literacia igualmente. O golpe germânico atirou a Europa para as masmorras da idade média. Só saimos de lá sobre a mão dos iluministas

O estrangeiro

Uma historia tragica - hamletiana, ibseniana - uma viagem ao fim da noite