quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Conservadores

O Pedro fontela numa tentativa de situar o conservadorismo português moderno apresenta vários nomes, que segundo ele “são os seus ídolos e figuras de destaque intelectual e de acção política”. A lista não é precisa, não afina pelo rigor, não prima pela disciplina, compreende-se, Pedro muito provavelmente não gosta de conservadores. Não o censuro. Na lista estão os nomes de Hegel e Maistre. Escusam de arrancar cabelos. O perfil das criaturas segue dentro de momentos.

Vamos por etapas. Pedro Fontela procura um conteúdo que preencha o recipiente conservador. Mas para começar o conservadorismo é intemporal, nao-ideologico – e incurável mesmo com o internamento imediato em Caxias ou Tires – o mesmo pode ser dito a respeito de reaccionários e revolucionários. Há socialistas reaccionários, revolucionários liberais e liberais conservadores. Importa compará-los, mais importante, importa situá-los. O conservador vive no único dos tempos que nos é dado a viver, em vez de cobiçar por um passado irrecuperável – como o reaccionário – ou aspirar a um futuro insondável – como o revolucionário.


Hegel

Há pontos de encontro entre Hegel e os conservadores de todas épocas e todas as ideologias. Procurou conservar uma época em formol. Um formol nacionalista, totalitário, historicista. Foi um reaccionário. Foi certamente uma reacção algo enigmática, enviesada, interesseira ao iluminismo nacionalista que paulatinamente cavava a sepultura de uma era abrindo caminho a novos tempos. Um nacionalismo que à falta de referencias agarrou-se à liberdade e democracia que transpirava muito nas ideias e pouco nos hábitos do continente. Hegel subverteu o nacionalismo germânico. Desiluminizou-o. Foi um mercenário. Enquanto para Platão o estado estava ao serviço da filosofia, para Hegel era a filosofia que estava ao serviço do estado. O estado era o estado Prusso. Propriedade privada de um monarca. Foi um impostor, nas palavras de Schopenhauer, conservador com muito de reaccionário, “Hegel – diz ele – imposto de cima pelos poderes vigentes como o grande filosofo oficializado, era um charlatão de cérebro estreito, insípido, nauseante, ignorante, que alcançou o pináculo da audácia por gaguejar e forjar as mais malucas e mistificantes tolices.” Na esteira de Thucydides, são os “feitos” e os ”discursos” que contam. Esqueça – Pedro – os feitos de Hegel e concentre-se nos discursos de Hegel. O hegelianismo é profundamente revolucionário, e profundamente totalitário. Pois se este foi beber a Kant, pela socapa combateu-o, foi em Aristóteles e Platão que fixou residência. Glorificou a autoridade, o estado, o poder, dotando-lhe uma essência pensante e consciente, cujo fluxo, força, cilindrava quem marchasse em sentido contrario, que, nas palavras de Isaiah Berlin, “entronizava aqueles cuja hora de dominar soou”. Como Marx, derivou, esvaziando-a, a moralidade do êxito histórico num caminho único e inflexivel – o destino – no qual o individuo a montante da abstracção era perecível. Para Hegel e Marx a corrente da historia escoa irresistivelmente da fonte para a foz, o nadador que a combater afoga-se. Escusado dizer que o fundo “rio” esconde cerca de 160 milhões de cadáveres.


Maistre

Maistre, tem de ser compreendido na reacção ao iluminismo, foi um descrente da revolução francesa, um dos muitos, não pela revolução, não só pela revolução, mas pelo conteúdo iluminista, o homem punha a ridículo os direitos humanos, a humanidade enquanto valor abstracto, a cidadania. Tudo o que ele representava pertencia um mundo já enterrado ou a caminho da sepultura. Restou-lhe transmitir-lhe as últimas exéquias, remoendo amarguradamente insultos e ofensas. O mundo de Maistre, o mundo ideal de Maistre era a Europa feudal, sonhos húmidos que incluíam carrascos e o terror absoluto da multidão ante o poder celestial do carrasco. Era isso que Maistre representava, o terror absoluto da multidão ante o carrasco, o poder, o divino. Não sonhava apenas com papas, reis e carrascos, admirava o que eles representavam na idade media: o terror. Esforçou-se para travar a marcha da historia, em vão, a historia no século XIX já o tinha ultrapassado. Era uma nova era, uma era iluminada, uma era de liberais e sobretudo de revoluções liberais. A direita conservadora moderna – embora conheça mal – parece me significativamente iluminista, se quer uma reacção actual ao iluminismo encontra entre a esquerda pós-moderna sobretudo nos herdeiros de Foucault, Deleuze, etc. Trinta anos volvidos, parte da esquerda sofreu um revés rasteiro – Marx deve estar às voltas na tumba, contorcendo-se com ataques de histeria – a esquerda acolheu uma corrente profundamente reaccionária, lançou o universalismo e o racionalismo às urtigas, e a meu ver parece em continuidade com o nacionalismo germânico de Hegel, Fichte, Schelling. Tem muito da linguagem mística e bizarra envolta em passagens enigmáticas do nacionalismo alemão. E como ignorar a desonestidade das duas escolas. Ou a busca a todo o custo pela fama. Retomando Maistre. Maistre não é só um fervoroso católico e um monarquista – um fervoroso apoiante da monarquia absoluta – nada disso, o que ele via no catolicismo e na idade media era as visões obscuras de Platão e Aristóteles. A tirania e o terror. Não confundir com o cristianismo, pois havia dois tipos de cristianismo, o primitivo, que era profundamente igualitarista, e o cristianismo da idade media profundamente totalitário. Não há hoje em dia bloco ideológico com semelhanças com o que Maistre representava, o gajo era único e é único.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Diario ateista

Há aspectos a louvar na humanidade, embora nem sempre saiba quais. Tanto convívio com a espécie, embora não mate, fatiga. E a fadiga traz no bojo a desilusão. A humanidade quando alem do contacto circular entre amigos e parentes é uma estopada. A escatologia do género humano, do homem prisioneiro do tempo, do homem sob as suas certezas, do homem agrilhoado às suas usanças, do homem sob os ferros e a ferros, ecoa na eternidade. A mesquinhez e a mediocridade do homem é proporcional à sua convicção da invencibilidade do seu tempo. Aqui não há ilusões. As fogueiras da inquisição são perenes e intemporais. Giordano Bruno arde todos os dias. Isto a propósito do diário ateísta, ali gente a derramar positivismo pela tromba e materialismo cientifico pelos dedos recruta uma massa imbecil que vem dos quatro cantos da Internet para desaguar na caixa de comentários. O que era um refugio de aristocratas, da epistemologia, torna-se o refugo dos insolentes, da estulticia, o que era uma moradia de factos, converte-se num exílio da asneira, uma receita de bom senso verte-se num vademecum da insensatez, uma vacina contra o fanatismo de outros tempos transmuda-se em anabolizante para a celebração de um fanatismo de sinal contrario singular a este tempo, ali uma turba ignara, à mingua de blogues, sem folgo nem descanso, insulta prelados, ofende crentes e calunia a humanidade em geral, gente medíocre e alarve que – será vendetta dos céus? – fala e articula em nome da razão e transpira irracionalismo a cada fôlego. O tempo é deles. E será sempre deles. Sejam católicos ou ateístas

sábado, 13 de outubro de 2007

Relativismo. Once again

O Nuno Castro não compreendeu ou está de má fé. Infelizmente não sei se as suas intenções são sinceras. Recomecemos do início.

Popper foi quem melhor anteviu a derrocada do iluminismo. Viu que o relativismo se não deixava escancaradas as portas do irracionalismo pelo menos as abria por metade ou um quarto. Ele denunciou o relativismo filosófico, o relativismo histórico, o relativismo moral. Citando Popper: “O relativismo é um dos muitos crimes dos intelectuais. É uma traição à razão e à humanidade.” Não podemos falar de relativismo moral sem começar pelo relativismo filosófico. A essência da filosofia é o que é a verdade. Crime primordial: a verdade é aquilo que a sociedade, a maioria, o meu grupo aceitam. Foi o que a escola nacionalista fez. O iluminismo defendeu uma ordem social pluralista e aberta e defendeu algo diferente dos nacionalistas. Kant disse: “ousa ser livre e respeita a liberdade e a diversidade nos outros, porque a dignidade do homem está na liberdade, na autonomia.” O liberalismo kantiano venceu o conflito ideológico do século XX mas trouxe consigo novos inimigos. Hoje há um relativismo dogmático que emana das universidades assente na certeza inabalável de que todos os pontos de vista são equivalentes ou arbitrários. A ciência ética retira da diversidade de normas éticas a conclusão que as morais são arbitrárias e que o único padrão é de que não há padrões. Isto conduz, na expressão feliz do Ezequiel, ao pluralismo radical ou multiculturalismo, não a uma ordem cosmopolita marcada pela diversidade de culturas, mas a aceitação de uma pluralidade de morais quando as sociedades têm um lastro moral que as torna funcionais. Não se trata de um apelo em defesa do caldo cultural e religioso – embora haja um nexo de conhecimento que chega do passado, passa por nós, e que queremos legar aos nossos filhos – mas não se trata, de grosso modo, do conteúdo mas da forma que o comprime. As sociedades que herdamos do iluminismo são compostas de criaturas estranhas meramente unidas na barca do destino pela obediência a um território e a uma constituição universal escrita sobre o direito natural em que o cidadão é a indispensável âncora. A chegada de comunidades de imigrantes que clamam legitimamente pela sua identidade encontram abrigo sob o manto do relativismo e do multiculturalismo que lhes clama o direito à integração. Convém chamar a atenção para pequenos exemplos. Na califórnia houve há poucos anos a possibilidade do espanhol ser instaurado como primeira língua nas escolas elementares. Issur Danielovitch Demsky, ou Kirk Douglas para o mundo, contestou: “Lá em casa só falávamos idixe. Os miúdos que eram nossos vizinhos de patamar só falavam italiano com os pais. Mas na escola todos aprendíamos inglês. Se assim não fosse, nunca poderia ter sido actor, o que devo ao meu inglês correcto”. O exemplo francês é o exemplo europeu, onde o medo manda e a pedagogia anda de braço dado com a ideologia, os jovens que não falam em casa a língua dos nativos são condenados ao insucesso e às margens da sociedade quando poderiam, a titulo de exemplo, beneficiar de aulas especiais que o acompanhassem no inicio dos estudos no país de acolhimento. A escola espaço de integração, contaminada pelo orientalismo de said, pela desconstrução de Derrida, pelo ataque de Foucault ao pensamento burguês, paulatinamente mostra-se contestatária da identidade dos nativos, da identidade europeia, do “estado-nação”, do direito natural, do progresso, do iluminismo, da razão. O nosso sistema educacional converte-se inextrincavelmente no motor do pluralismo radical, disciplina que divide e encoraja rivalidades tribais e promove a derrocada das escolas em que funda-se o ocidente. O assalto à herança cultural, intelectual e estética não gera qualquer espécie de obediência nova a uma identidade colectiva, sonegando ao enquadramento institucional uma lealdade que a suporte, e abrindo o caminho ao tribalismo e em ultimo passo à tirania. As ciências sociais retomaram a herança dos românticos e dos piores vícios dos nacionalistas e ao abrir de braços romperam as velhas ortodoxias herdadas do iluminismo, e pelas quais os nossos antepassados tombaram. A excisão feminina não é universal entre os muçulmanos, nem todos o praticam, muito menos é uma fantasia xenófoba – onde é que foi buscar este absurdo? Retomo o pensamento. O que está em causa é saber se estamos dispostos a abrir clinicas para executar higienicamente a excisão feminina. Como foi sugerido em Itália. Ou se preferimos punir o pai que rasga as entranhas da sua filha, como se faria com qualquer pai europeu. Lembro que a questão da criminalização passou pelo parlamento português e a esquerda moderna diferiu sob as velhas justificações que faziam marchar os romântico-nacionalistas. Isto é factores culturais. Será aceitável abrir buracos na lei para permitir a aplicação da sharia. Como foi proposto no Canada e acontece oficiosamente no interior dos estados europeus. Será correcto aceitarmos o apedrejamento até à morte, ou o corte das mãos do criminoso, ou a obrigação da mulher encontrar pelo menos quatro testemunhas masculinas no caso de enfrentar a acusação de adultério. Terá a grelha legal tolerar abusos físicos sistemáticos no interior de um casal muçulmano como expressão cultural. Ou que cidadãos, sob o arame farpado da comunidade, conspiram abertamente contra a sociedade de acolhimento. Ou que nos subúrbios das grandes cidades, como acontece em França, que existam bairros onde a lei não vigora e as autoridades recusam a entrar. Ou que haja vários milhões de cidadãos ou residentes que não se consideram abrangidos pela lei do país de acolhimento. Infelizmente isto significa que parte do território e parte da população fica à margem da alçada da lei estatal. Na linha de max weber, ao estado cabe o monopólio da força autorizada ou legitima, e cabe lhe a protecção de quem cai dentro do seu território. Estamos a pôr um fim ao estado soberano e a criar estados dentro do estado protegidos por uma moral substantiva que mora no velho chavão nacionalista de que a tradição, cultura, e comunidade são o fim inquestionável do homem. Quer queira quer não é esta a realidade em vários países europeus.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

liberalismo contemporâneo

Começo com um ponto essencial. Nao penso que o liberalismo e a sociedade liberal sejam necessariamente o mesmo. Vivemos numa sociedade liberal mas o liberalismo nao é a sua unica corrente. Nao temos uma ideia, temos varias ideias. Nao temos uma crença, temos varias crenças. De um modo simpatico a sociedade liberal define-se politicamente pelo respeito tradicional pela discussao no campo da politica e pelo metodo do governo via debate. As velhas tradiçoes gregas da discussao critica e a predisposição para o compromisso. No sopé da filosofia platonica os assuntos humanos, a politica, e a filosofia estão tacitamente ligados. É assim que o problema do multiculturalismo deve ser tratado, um problema filosofico, um problema politico, um problema humano. Que o debate critico o resolva. Que desafio enfrenta o debate critico moderno? Uma moral substantiva, novas crenças, novos habitos, mas o atomo continua a ser o individuo, e o individuo encerra a possibilidade de transcendencia dos limites culturais. Um conceito iluminista caro ao progresso da civilização ocidental – seja lá o que isso significa nos dias de hoje. Um conceito caro às raizes da esquerda. O debate nao é assim tão moderno e é tão velho quanto os reformadores do seculo XVIII e XIX. E os preconceitos e superstiçoes são milenares. Tão velhos quanto as tribos nomadas hebraicas. Com kant no horizonte, antes de qualquer comunidade cultural há um substrato humano universal. E um direito natural – a cartas dos direitos humanos – a prevalecer na comunidade politica ocidental.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Capa Atlantico

A esquerda de lés a lés sofreu uma congestao de infamias. Houve panico, histeria, escandalo, apoplexias, desmaios. Não necessariamente por esta ordem mas necessariamente em soez convivio. Estancada a dor e já de pé, a boa alma passou ao insulto. O argumento é claro: a grosseria e a bestialidade de hitler nao se comparam ao idealismo e à bondade de che. O argumento é avassalador como uma diatribe juvenil. E é aqui que o equivoco funda-se: che é um dos amores do adolescente que vê no mundo um recreio escatologico que importa limpar em nome de uma utopia sanitaria. A adolescencia é o berço de todos os totalitarismos. Nao há adolescente politizado adepto de soluçoes amorfas e passivas. O adolescente pede mudança, nao para amanha, mas hoje e já. É neste ambiente com che ao peito, calça larga, keffieh ao pescoço que a fileira do radicalismo conhece todos os dias novos recrutas prontos a marchar em nome da demencia. Che nao é a luta armada, o socialismo cientifico, a tirania, os fuzilamentos, as vanguardas, as masmorras totalitarias, a ausencia da liberdade, policias politicas, campos de concentração e gulags, é mais do que isso, é o manto da genorosidade, nobreza e candidez que cobre o "idealismo violento" de jovens urbanos enfadada pela civilização, perdida de tedio e pronta para a barbarie. Nunca conhecerão o palco onde o sangue jorra e os homens clamam pela carne que os pariu. Cenario hostil a gente "amante da paz". Mas asseguram a sobrevivencia das patrulhas ideologicas que pastoreiam a moral, a estetica, a politica do continente. A começar pelas capas.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Os conservadores

O conservadorismo embora o mais barato do cardápio politico continua a ser um prato que se come a contra-gosto. O zelo ideológico dos revolucionários do século XX pintou os conservadores em tons lúgubres e autoritários em proximidade com o nazismo ou o fascismo. Para os revolucionários do século XX bastou os ventos da história. O pensamento permanece. É aqui que situa-se o equivoco, o conservadorismo ainda tem procuração dos retrogrados e reaccionários. O antídoto está essencialmente em cada um de nós. A sua base “epistemológica” está no bom senso e tem raízes no decoro estético, intelectual, moral que jaz na conduta humana. Somos na essência conservadores, e se não somos sempre conservadores somo-lo necessariamente muitas vezes. D o strauss, posiçfamilia,rismo itarios.efendemos a nossa família, certos valores, alguns hábitos.


Oakeshott definiu o conservadorismo. O conservadorismo é uma forma de estar, uma disposição. É um começo. Enquanto o socialismo é uma ideologia flanqueada por um cardápio politico, o conservadorismo, na esteira de leo strauss, é virtuosismo. Ao lado de Oakeshott vemos que o seu tempo não é o passado – como para um reaccionário – ou o futuro – como para um revolucionário – é o presente. Ele prefere o que é familiar ao desconhecido. As mudanças fazem parte da vida, embora não as deseje, vê nelas a marcha da história. Mostra-se mais disposto a gozar o que é seguro e conhecido do que pôr se a caminho de um futuro incerto com perdas insanáveis. A “roupagem” do conservador é a dos seus tempos, não está nos livros e nem é sumariada em manuais. Para o conservador não há credos ou doutrinas, apenas o seu tempo, os seus afectos, os seus hábitos. Politicamente um conservador não tem como escopo a utopia, o delírio perfeccionista, o desvario messiânico. O governo é a mão das regras sociais da comunidade. Uma gestão paciente do debate publico sem participar nele. Uma visão pública que visa zelar pelos interesses individuais. Um vinculo jurídico que procura o mínimo de frustrações individuais. Um quadro silencioso de regras aberto à voragem do tempo e da mudança histórica das actividades humanas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A cinta totalitária

Os movimentos radicais de esquerda desde da Bastilha têm como cimento ideológico o chamamento implacável para a violência. Para o delírio utópico a verdadeira democracia está nas ruas, e nos actos da plebe. Tudo o resto é, notem bem, ilegítimo – a começar pelas decisões fundadas na legalidade do estado de direito e na alternância dos detentores de cargos públicos que as apadrinham.

O ecoterrorismo em Silves não trás nada de novo e atira-nos para os movimentos chamados altermundialistas cuja obediência é unicamente rendida aos lugares-comuns da estratégia dos esquerdistas reciclados e da maioria das ONGs. Os jovens que estão contra a globalização, contra a guerra, e contra o milho transgénico são na verdade ideologicamente velhos, são os soldados desarrumados do exército comunista arrumados numa nova cruzada contra o capitalismo, a América e o liberalismo embrulhado num pacote radical-chic apostada em dizer ao mundo mais uma vez que o “bem” está com eles e que a expressão de actos contrários aos seus slogans constitui um crime punível com vandalismo.

A minha preocupação teria a duração efémera das rosas de Mallesherbes, não fosse, neste caso, a organização que conspira e destrói a propriedade privada, que o estado tem a obrigação de proteger, gozar o apoio financeiro e a conivência das forças que dão musculo ao estado. A visão das luzes e a lei romana legou-nos os mecanismos que permite prevalecer ideias pela via da persuasão e da escolha em eleições livres ou pela disputa judicial em tribunal, que os ecofanáticos as ignorem não me aborrece, que o próprio estado esteja disposto a marchar no desvario, é de levar o cidadão a pensar que os seus impostos estão nas piores mãos possíveis e que qualquer lunático ao abrigo das virtudes da moda os pode legitimamente colher.

No mundo ideal dos ecofundamentalistas onde não houvesse McDonald nem Monsanto ou a Microsoft, talvez o homem – preferencialmente de cabeleira “rasta” – possa estiolar revolucionariamente de tédio respirando o ar puro dos campos estrumados mas terá de punir, pela sua simples condição de ser humano, quem não caiba na cinta ideológica. E esse é o papel dos totalitários de todos os tempos.


In Atlantico, Outubro 2007

terça-feira, 2 de outubro de 2007

O canibalista e o homem civilizado - Nuno Castro

A europa vive sob o terror do espectro do racismo. Imersa no medo de si propria. Na culpa pos-colonial. E no relativismo epistemologico. Este degenerou misteriosamente no relativismo moral. Convem notar, relativismo epistemologico nao é relativismo moral. Podemos compreender as particularidades culturais: a sharia, o apedrejamento até à morte, a excisao feminina, o canibalismo. Mas nao aceitamos o seu comportamento. E nao sao legitimas sob a herança do iluminismo. Mas vivemos numa sociedade à deriva, mutilada nos valores, sem padroes morais substantivos, cuja unica conviçao moral é a negaçao de padroes e a perseguiçao intelectual a quem os tem. Estes sao entao sumaria e intolerantemente acusados de irracionalismo pedestre e nao esclarecido ou nao iluminado pela filosofia sofisticada do relativismo. O relativismo no campo da ciencia social postula uma abertura a que nada abdica da natureza e dos fenomenos do jogo social humano. Há um significativo contraste entre a humildade aparente do relativismo da sua arrogancia pedante. O relativismo rejeita o absolutismo inerente ao ocidente. Enfrenta a possibilidade de uma etica racional e universal de um direito comum, com indignaçao ou desprezo, e acusa o iluminismo de provincialismo. Mas os individuos reunem-se para decidir o seu futuro comum. Reconhecem que estao juntos e que dependem um dos outros, o que os obriga a decidir como deverao ser governados, ao abrigo de uma jurisdiçao universal na busca do seu bem estar e o minimo de frustaçoes. O relativismo abre portas na melhor das hipoteses a um pluralismo de morais substantivas, e na pior das hipoteses ao caos legal. O relativismo escreve pois a historia do multiculturalismo. O relativismo declara objectivamente que civilizaçao nao é superior ao canibalismo. E o multiculturalismo defende que o homem civilizado e o canibalista podem coexistir na mesma sociedade. Que o homem civilizado conduza a sua vida e que ainda acabe no tacho do canibalista é essa a essencia do particuralismo cultural do canibalismo. Nao o devemos criticar, a sociedade deve contemplar a complexidade de factores socio-culturais da comunidade canibalista e o estado deve a proteger da grelha legal do homem civilizado. A obsessao pelo particularismo identitario e comunitario origina um desprezo pelos principios constitucionais e pelo corpo de leis que apenas reconhece individuos. Os multiculturalistas exigem que a lei deve reconhecer direitos para culturas e comunidades. Entre elas a dos canibalistas. Se no forno do canibalistas está o peito de um cidadao é um direito que deve ser consagrado pela personalidade juridica que especifica a comunidade canibalista. O multiculturalista, tal como a nemesis do nacionalismo, Fichte, garante que o individuo está inextricavelmente preso a uma cultura que é definida por criterios exteriores à sua vontade e intelecto. A autonomia nao existe, é uma escolha efectuada por algo sobre-individual. A comunidade. O individuo nao existe, apenas o grupo é real, a sua vontade é a da vontade geral. A vontade do grupo. Da comunidade que pensa por si. O multiculturalista vê no canibal uma passividade biologica, e a impossibilidade de transcendencia do limite cultural. A contextualizaçao comunitaria serve de legitimiçao moral ao seu comportamento. O canibalismo é trangeracional e as constituiçoes que sustentam os rechtstaat europeus nao sao necessariamente partilhados pela comunidade canibalista que usufruem da sua protecçao. Uma infamia que pede novas regras e novas leis. Se o Nuno Castro acabar no estomago do canibalista nao há espaço para horror e consternaçao. Devemos aceitar o canibalista e uma moral substantiva. Devemos aceitar uma pluralidade de ethos. Cada Volk a sua Ethos. E como os velhos romanticos, aceitar a ideia da tradiçao, cultura, e comunidade como fim inquestionavel do homem. O iluminismo é credor de um substrato universal - o direito natural. Os multiculturalistas de hoje, como os nacionalistas de ontem, negam-o. São anti-universalistas, anti-iluministas. E vendem o direito de indole comunitarista como expressao maxima de progressismo. Cavalgam os ideais do romantismo o que faz do multiculturalismo uma forma elegante de nacionalismo.