sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Das certezas

A ver se me explico. Estamos - nao muito - distantes da melancolia existencialista em Beckett e da desolaçao oitocentista. Convem cavar mais fundo, o nosso personagem, inabil penitente, hesita entre a angustia e a auto-culpa, a incomunicaçao e o medo. Os demonios sao eloquentes. Como Malone - condenado à vida - sabe que é imperioso continuar e como Mishima que nao há retorno e o fim chegou. A vida é uma contradiçao e toda existencia humana patetica. A puniçao está na vil consciencia e a melancolia aqui é insulto - porque luxo de poucos. É algo mais subterraneo, um desespero a lume brando que calcina por dentro e desverbaliza (desumaniza) por fora. Como as personagens de Primo Levi, um punhado de aleijoes desfigurados na carne e na alma pela vida e pela morte. A literatura nao salva apenas adia o dia do juizo final. É isto. É isto.

In stereo

PS é provavel que haja mais do que uma ainda que nem de só uma estou certo

domingo, 18 de janeiro de 2009

Das duvidas

Ainda que recorrente o compromisso, nunca nos sabemos merecedores de amor ou desprezo, muito menos de justiça ou injustiça, duvida classica que ganha dimensao quando na proxima porta entra-se - mais figurativo que literalmente - em volumes e se sai em versiculos. Ante as trevas da aniquilaçao ha sempre o anelo do retorno, um regresso à inocencia sob a mao de um deus pagao, uma prodigiosa regressao à multidao embevecida de multidao, uma debandada imaginaria para a infancia imaginada nos muitos que vivem para os muitos, a ideia atrai mas nao pega, hesse ensaia breve explicaçao: en el principio de las cosas - escreve o poliglota - no hay sencillez ni inocencia; todo lo creado, hasta lo que parece mas simple, es ya culpable, es ya complejo, ha sido arrojado al sucio torbellino del desarollo y no puede ya, no puede nunca mas nadar contra corriente. A inocencia é isso só, ilusao de ouropel mas sem proveito, a inimputabilidade absoluta de quem nao leu bergson ou beckett - tranquilidade dos simples - é um mito, estamos todos no limite condenados como sisifo a rolar a nossa pedra

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

apaixonou-se por si proprio

a historia de um amor nao correspondido

sábado, 10 de janeiro de 2009

Teologia

A expulsao de eva do paraiso serve como metafora, o fruto como o conhecimento, o casal a humanidade que desonra a arvore, o jardim, o criador, a explicaçao teologica ainda que elegante nao é para aqui chamada mas fica o essencial, o conhecimento como profanaçao do sagrado, mais do que isso, pois transborda os escassos limites do saber em stricto sensu ou da erudiçao mercantilista, é misantropia, o conhecimento é um acto misantropo, proprio de quem se isola - porque de longe se ve a floresta - para provar o fruto que deus verbera e o intimo procura, como genet que prostituia-se nas calles de barcelona ou bolaño que fez da mendicidade profissao é outra questao.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

o checo

imagino o checo trasladado sem apelo nem escrupulos para 2009, assim convertido por via surrealista em blogger e tomado de odios pelo pai e de amor pelo mundo, mais do que isso, em busca do amor do mundo para compensar a renuncia do pai - causa essa que mesmo um profano em terreno sagrado suspeita justa e democratica e jamais calvario indigno de cartas e zoologia barata

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Gaza

Há muito que o conflito encontra-se entrincheirado em facçoes e tribos, facil é escolher o aglomerado de tontos, dificil é nao cair nos seus braços - um compromisso, ainda que dure 5 minutos, é para toda a vida - como dizia gasset, citando de memoria, ser de esquerda ou direita é uma das infinitas formas de se ser imbecil, uma forma de hemiplegia moral, estava repleto de razao o manchego, é mais do que uma questao de liberdade, sobretudo numa epoca - sitiados por ela - em que escasseia quem a exerça, no fundo isto para acabar onde comecei, no conflito, os dois lados estarao sempre crismados pela razao, havera sempre razoes poeticas ou escatologicas para o crime, somos a descendencia de caim, e isto os simples e os fanaticos nunca alcançarao

domingo, 4 de janeiro de 2009

Brindemos aos fantasmas que seremos

Num mundo sem deuses qualquer vida é uma corrida frenetica em direcçao a nada. Uma odisseia solitaria, plena de inescapaveis horrores - sem exageros poeticos. No mundo de antanho a justiça divina podia tardar, mas a ira era imediata, para la do pano a paz e o mel dos anjos em proporçoes iguais, aca a tirania dos carrascos em proporçoes desiguais. Aqui derrotados estamos e derrotados acabaremos porque nao há faulkner ou hesse que nos salve, morremos, como dizes, e ao po voltaremos, é isto a vida, a tale full of sound and fury signifying nothing, nao houve fuga e nao havera fuga, obedecemos e seguimos de cerviz inclinada as arbitrariedades que as contingencias determinam - essa perfidia que nos pune a cada segundo. Somos dessa estirpe, de nula ambiçao, em isolamento perpetuo, e de chicote na mao para que as costas sigam impecavelmente da cor do sangue. Assim continuarei, de jean genet até que uma bala mais apressada nao peça licença

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

a unica certeza II

se a morte é o supremo pecado da criaçao divina cada derrota terrena é a suprema pequena morte

a unica certeza

enquanto a vitoria é de poucos a derrota é de todos, assim vamos de derrota em derrota até a derrota final