quarta-feira, 25 de junho de 2008
O mundial é nosso
Chegou ao fim a expedição lusa pelos alpes – Debelada por alguma tribo germânica? Furaram os pneus do autocarro? Pouco importa, o azar de uns é a sorte de outros. Cerceado o direito à blogga e sitiado por quatro canais o feito sabe a bifes de alce na brasa. O tempo não está para a foleirada dos selvagens da bola mas para os foliões dos comes e bebes. Pelo menos o carnaval fora de época vem demonstrar o nível de ilustração desta gente. O país exibe-se tão analfabeto como na pior hora fascista, eis o que temos, eis o que somos, uma nação de emplastros a perseguir câmaras de tv e a profetizar glória nos relvados internacionais. O que os redis da ocde e do fmi nos nega buscamos no pano verde dos estádios. Ainda o árbitro não apitava para o jogo Turquia-Portugal e já a pátria coroava-se campeã – a cada directo, a cada brecha intervalesca para publicidade – brindava-se de êxito por que estava escrito nos astros e nos remates ziguezagueantes do Cristiano Ronaldo. “Tem de ser, o caneco é nosso”, asseverava extasiado o povo verde-vermelho – rigores da metafísica professada pelos amantes do 4x3x3 ibérico, historicismo uefeiro que Hegel jamais suspeitou mas que esta tribo pratica de dois em dois anos a pedir meças a Heraclito ou a Platão.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Ordem Espontânea III
ML
Parece que ambos estamos indisfarçavelmente com os dois pés na metafísica, e em campos opostos. Em vez de factos em bruto baconianos chafurdamos em factos em bruto de inspiração mística. Factos com que podemos concordar ou recusar, mas não discutir. Não concorda comigo e eu não concordo consigo. Pelo menos e justamente no fundamental. E nisto não há nada a fazer. Quem asseverou que da discussão nasce a concórdia ou nunca discutiu ou babava-se por solilóquios axiomáticos. E não há disposição filosófica ou psicológica que a apoie. O que vem a propósito. A ordem em que vivemos, insisto, é essencialmente espontânea, não há uma ideia, uma cultura, um individuo, uma nação, uma causa, um credo, há vários, em desassossego permanente e dotados de vontade própria, a crença num caminho racional – ou pior, racionável – é irracional, não há um motor ou vários – pura metafísica, e velhíssima. Há revoluções e novos reinos de liberdade, padrões em que se manifesta uma semi-consciência colectiva, mas não são começos absolutos, são começos relativos, quando os homens se reúnem para realizar novas sociedades olham invariavelmente para trás, porque a tragedia humana é invariavelmente a mesma. É aqui que eu não posso concordar – fora dos instantâneos que marcam o renascimento de Roma. Eu não nego a politica – como atitude calculista e de transformação – nego-lhe poderes místicos, não é só uma questão metafísica ou de plano – é o grau de consciência na fluidez do processo histórico
Parece que ambos estamos indisfarçavelmente com os dois pés na metafísica, e em campos opostos. Em vez de factos em bruto baconianos chafurdamos em factos em bruto de inspiração mística. Factos com que podemos concordar ou recusar, mas não discutir. Não concorda comigo e eu não concordo consigo. Pelo menos e justamente no fundamental. E nisto não há nada a fazer. Quem asseverou que da discussão nasce a concórdia ou nunca discutiu ou babava-se por solilóquios axiomáticos. E não há disposição filosófica ou psicológica que a apoie. O que vem a propósito. A ordem em que vivemos, insisto, é essencialmente espontânea, não há uma ideia, uma cultura, um individuo, uma nação, uma causa, um credo, há vários, em desassossego permanente e dotados de vontade própria, a crença num caminho racional – ou pior, racionável – é irracional, não há um motor ou vários – pura metafísica, e velhíssima. Há revoluções e novos reinos de liberdade, padrões em que se manifesta uma semi-consciência colectiva, mas não são começos absolutos, são começos relativos, quando os homens se reúnem para realizar novas sociedades olham invariavelmente para trás, porque a tragedia humana é invariavelmente a mesma. É aqui que eu não posso concordar – fora dos instantâneos que marcam o renascimento de Roma. Eu não nego a politica – como atitude calculista e de transformação – nego-lhe poderes místicos, não é só uma questão metafísica ou de plano – é o grau de consciência na fluidez do processo histórico
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Ordem Espontanea II
ML, nao posso concordar consigo, pelo menos totalmente. As sociedades avançam na base do erro e do ensaio - sobretudo fora da brecha temporal que marca a libertaçao e a definiçao de um reino de liberdade - procuram resolver problemas estabelecidos à priori - nao há politica fora da historia. Os objectivos elementares da comunidade politica serao combater males concretos e impedir extremos de sofrimento - e a politica pode ser mais do que um programa de quatro anos - mas a comunidade está sempre aberta às novas condiçoes historicas. A gestao surge em virtude da auto-organizaçao dos seus elementos e o que vai esculpindo as sociedades é a convergencia nao-planeada das virtudes e dos vicios dos individuos que a compoem - imprevisiveis, incontrolaveis. As ideologias nascem e morrem, sao meros sucedaneos no grande curso da historia - a historia faz pausas mas nao chega ao fim, toda a ordem é susceptivel de mudança. É a interacçao multidimensional e espontanea entre os varios elementos - humanos e nao-humanos, permeaveis ou nao à acçao humana - que geram novos anatemas e questoes civilizacionais. E novas metas programaticas. Cada estadio parece tributar-se a um estadio anterior, mutavel e que nos conserva e comunica o que o mundo precedente produziu mas nada indica que haja sequer uma entidade sobre-natural chamada "progresso". Citando Nietzsche, "O tempo anda para a frente; gostariamos de acreditar que tudo o que existe nele anda tambem para a frente - que o desenvolvimento é algo que se move para diante." O que pode em ultima instancia impedir que aconteça um novo cansaço com os negocios da cidadania e da civilizaçao?
Para quando um blog, ML?
Para quando um blog, ML?
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